Se a criatividade pudesse ser traduzida em uma manifestação cultural, meu palpite é que seria o Carnaval.
Celebração máxima dessa habilidade, as fantasias elaboradas das escolas de samba, as improvisadas, irreverentes e divertidas do Carnaval de rua, alegria e música que contagia são ingredientes que fazem dessa festa um rito do não convencional, do autêntico e, apesar de existir há muitos anos, porque não do novo!
Nos últimos anos, Belo Horizonte, a cidade onde resido, passou de cidade-deserta-no-Carnaval a uma grande ocupação do espaço público com a proliferação de blocos de rua que tomam a cidade em um mar de música e fantasia. Sim, temos mar em BH!
Mas eu não queria falar da festa em si, até porque não tenho credenciais de boa foliã e este post não seria nada autêntico se eu me arriscasse a escrever sobre a experiência de viver o Carnaval na minha cidade.
Eu quero falar dela, a tão desejada criatividade e nossa forma de trabalhar.
A criatividade no trabalho
Algumas empresas têm incorporado no ambiente de trabalho elementos como piscinas de bolinhas, escorregador, mesas de sinuca, como código de abertura à criatividade, mas me pergunto, quando você está diante de um problema, uma planilha, números e pressionado para entrega de resultados, como aplicar essa habilidade na prática.
Em 2014, eu tinha acabado de assumir a gestão da área de relacionamento com a comunidade e sustentabilidade em uma grande empresa do setor automotivo e tínhamos um projeto social no entorno da principal planta industrial da empresa. Eram oferecidas oficinas culturais e esportivas para alunos da rede pública no contraturno escolar e uma dessas atividades era um coral.
Naquele ano, o projeto completaria uma década e meu diretor me encomendou uma solenidade para celebração deste marco. Foram dois requisitos: auditório lotado e apresentação do coral.
Ele não foi muito específico na “encomenda”, mas solenidades desse tipo significavam uma série de discursos corporativos, uma plateia ansiosa para esse momento passar logo e uma apresentação cultural que era emocionante, mas muitas vezes repetia um formato já conhecido ao longo do tempo de vida do projeto.
Eu saí da sala me colocando no lugar da plateia e tomei uma decisão muito arriscada: transgredir completamente a lógica desse perfil de evento e fazer um grande espetáculo de teatro contando a história do projeto.
Reuni meu time, acionei meus contatos do tempo que trabalhei com marketing cultural e fiz o convite ao renomado grupo de teatro “Ponto de Partida” para montarem um musical em que o enredo seria a história do projeto e as músicas performadas pelas crianças e jovens do projeto.
7 meses depois de muita pesquisa para construir o enredo, muitos ensaios, muita pressão do meu chefe que não tinha muita ideia do que seria entregue, estreamos em março de 2015, em um auditório lotado, uma apresentação surpreendente e muito, muito emocionante.
4 coisas que aprendi sobre criatividade no trabalho
O que aprendi com essa experiência sobre uso da criatividade no trabalho:
- Usar a criatividade impõe assumir alguns riscos. Você vai percorrer um caminho diferente, desconhecido e novo e um grau de risco será inerente ao processo.
- Monte uma equipe especialista, acompanhe e confie. Eu não entendia nada ou quase nada de linguagem teatral, mas me apoiei na excelência do parceiro e na relação de confiança que já tinha estabelecido com eles em experiências profissionais anteriores, com minha equipe e o time do projeto.
- Faça combinados e contratos com a liderança sobre o processo e as entregas. Neste exemplo que apresentei, o processo criativo do espetáculo não era linear e meu gestor só foi ver o produto final completo às vésperas do evento. Isso, claro, gerou insegurança e muita pressão sobre o resultado. Era uma apresentação única, com gestores da empresa, autoridades, imprensa, muitos formadores de opinião e não dava para errar. Fomos resolvendo isso com entregas parciais, mas elas não foram planejadas e essa foi uma grande lição aprendida.
- Não tenha medo de propor algo diferente. Abra espaço para o que nunca foi feito na empresa, calibrando a adequação à cultura empresarial. Apesar de muito novo, o espetáculo reforçou muitas mensagens corporativas importantes como a origem cultural da empresa, seu compromisso com o desenvolvimento social e qualidade. Inclusive, todo o figurino foi feito com cinto de segurança, reforçando a mensagem de reciclabilidade que já era trabalhada no projeto social.
Felizmente, gravamos um DVD com essa apresentação e consigo revisitar essa experiência com frequência, lembrando que a criatividade pode ser um ingrediente ousado, mas com resultados que nos orgulham.
Tem fotos lindas também e vou deixa-las aqui, no final do post.
E o Carnaval?
Não frequento a festa, mas como moradora não pude ficar alheia à movimentação e, a exemplo do espetáculo e da minha experiência que contei acima, me coloquei no lugar de plateia, observando essa nova dinâmica.
O que mais me chamou atenção neste movimento foi a ressignificação do espaço público e a forma de ocupação de ruas e avenidas para além de um local delimitado para deslocamento. Estas veias da cidade, junto com praças, parques e prédios públicos, neste período da festa, deixam de ser apenas pontos de ligação para se tornarem palco de um espetáculo.
Nestor Canclini já falava que
“Não atuamos na cidade só pela orientação que nos dão os mapas ou o GPS, mas também pelas cartografias mentais e emocionais que variam segundo os modos pessoais de experimentar as interações sociais.” IMAGINÁRIOS CULTURAIS DA CIDADE: CONHECIMENTO / ESPETÁCULO / DESCONHECIMENTO
Então, vimos o surgimento de uma nova cartografia emocional que projetou nossa cidade como Cidade Espetáculo. Este termo foi apresentado por Canclini no mesmo texto do trecho citado acima e ele refere-se a este conceito para denominar cidades globais como Barcelona, Berlim e Nova York.
Não somos tão globais, mas acho que o termo é aplicável para nossa Belo Horizonte, ao menos nesta esta época do Carnaval.
Tenho certeza que os cerca milhões de foliões esperados para o Carnaval de Belo Horizonte este ano concordam comigo.
E que a criatividade do Carnaval possa inspirar cada vez mais nosso ambiente de trabalho e que possamos traçar novas geografias emocionais nos ambientes corporativos que ocupamos.