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Inspiração

8 de fevereiro de 2026

DETALHES DE INFÂNCIA

Debruçávamos, eu e meus irmãos, em uma janela de madeira, que era a mais perto da rua, no segundo andar da casa. A gente começava a ouvir a voz do nosso pai quando ele chegava no nosso quarteirão, vindo do trabalho, cantando Roberto Carlos. Engrossávamos o coro de “Detalhes” e descíamos as escadas correndo e antes dele dar a última volta nas chaves ou terminar o refrão, estávamos prontos, com uniforme da escola e muita fome, esperando-o para almoçar.” – Hoje tem bife acebolado, pai. Você pode comer usando o jaleco?” “- Podem ir sentando à mesa, vou me trocar e já chego”. Olhei para meus irmãos e fui a derrotada da vez de quem ia fazer o pai quebrar a regra e ficar com o jaleco em casa. Nem o argumento da comida preferida funcionou dessa e de outras tentativas.

“- Sua irmã teve pneumonia quando tinha três meses e quase morreu”. Ele puxou conversa no almoço. “- A gente já sabe, pai. E ela tem o sangue do Gersinho por causa disso”, respondi desinteressada por esse assunto no almoço. Já éramos grandinhos e ele contou que a doença dela veio no jaleco do hospital, depois dele atender uma criança com pneumonia e não trocar de roupa antes de pegar minha irmã bebezinha no colo. 

Seus olhos se encheram de lágrimas e ficamos em silêncio. A partir desse dia, mudamos a brincadeira na hora de esperá-lo chegar, mas o Gersinho, a cada gole na cerveja gelada depois da pelada, continuou ouvindo a brincadeira que ele devia parar, porque tinha responsabilidade pelo sangue que corria nas veias da minha irmã. 

Meu pai tinha um consultório em casa e atendia todos que tocavam a campainha. O jaleco era meticulosamente vestido e tirado para examinar com cuidado cada criança. Com meu pai, aprendi a generosidade. Os que não podiam pagar, recebiam o mesmo tratamento dos que podiam.

Nossa biblioteca era no consultório. Barsa, Delta-Larousse e Enciclopédia Disney, minha preferida. Os trabalhos da escola se misturavam às brincadeiras com as bonecas. “- Pai, você pode atender a Tetê, acho que ela está com febre.” Ele tirava o estetoscópio, o termômetro, media a temperatura, pesava e escrevia a receita no papel timbrado, com carimbo de médico, assinatura e tudo: “três gotas de novalgina de oito em oito horas”. A consulta era paga com pedacinhos de papel e, quando ele não estava, a fantasia era repetida entre mim e minha irmã.

Esse cômodo também foi o cenário da maior bronca que o meu irmão recebeu. Nosso pai estava há anos tentando parar de fumar e deixou de comprar maços de cigarro. Como o vício falava mais alto, ele pedia meu irmão para ir no bar do Dario comprar cigarro avulso, na mesma frequência que fumava os cigarros quando tinha o pacote em mãos. Não ter os cigarros disponíveis foi uma péssima técnica para parar de fumar, mas acho que aliviava a culpa ou lhe dava a falsa sensação de que estava fumando menos.

Cansado de ir e voltar do bar várias vezes ao dia, meu irmão comprou um maço e escondeu atrás dos livros da biblioteca. Quando nosso pai pedia para ele ir ao bar, ele se escondia no consultório, calculava o tempo de ida e volta, e aparecia na sala com a encomenda. Não sei se meu pai desconfiou de alguma coisa ou descobriu o esconderijo, mas meu irmão lembra até hoje da dura que levou. E, de raiva, ou em razão mesmo do vício, meu pai fumou tudo de uma vez.

Foi uma novena, que eu e minha irmã fizemos para Nossa Senhora, que operou o milagre. Meu pai encontrou nosso caderninho das orações com as anotações e o nosso pedido “ – Nossa Senhora, por favor, faça nosso pai parar de fumar para ele viver muito tempo com a gente” . Ele ficou tão comovido que nunca mais colocou um cigarro na boca. Até hoje eu me apego à Nossa Senhora…

Caçula e temporão de uma família de quatorze filhos, oito que sobreviveram ao primeiro ano de vida, ele foi o xodó das irmãs mais velhas e sua linguagem de amor sempre foi de afeto, cuidado e carinho. A relação deles era de muita alegria e permeada pela música. Fui cercada desses sentimentos e desde que saí de casa para estudar, aos quatorze anos, tenho saudades do seu colo, do seu abraço e dele cantarolando pela vida.

A memória do meu pai está se apagando, muito mais rápido do que gostaríamos ou esperávamos, mas suas lembranças moram em mim. Nossa Senhora tem atendido nossas preces, Ela o presenteou com a cura de várias doenças graves e são oitenta anos de um vida construída com amor.

Branco é minha cor preferida desde sempre e toda vez que ouço qualquer música do Roberto Carlos, me dá vontade de pendurar em uma janela para esperar meu pai chegar.