Pessoa sempre foi pessoa. Um substantivo concreto que nunca precisou de explicação para que seu significado fosse entendido.
A gente podia até acrescentar um adjetivo, mas para cumprir estritamente a função de qualificar o sujeito: boa pessoa, pessoa confiável, generosa, humilde, arrogante, justa, simpática, antipática. E até em variações machistas como Homem com H, não tínhamos dúvida que estávamos nos referindo a uma criatura, nascida, humana.
Se pensarmos em questões mais filosóficas, Guimarães Rosa, no meu livro preferido, Grande Sertão Veredas, assume nossa incompletude, evolução e nesse trecho lindo, o jagunço Riobaldo reflete sobre nossa condição:
“O senhor… Mire veja: o mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas — mas que elas vão sempre mudando.”
Diversas, incompletas, em evolução, mas sempre pessoas e ponto.
Mas, agora, com o advento da Inteligência Artificial, parece que esse substantivo concreto perdeu sua completude e precisa de um complemento para distinguir se estamos nos referindo a uma pessoa da vida real ou virtual.
Pessoa de carne e osso, pessoa de verdade, pessoa real. Ou não, pessoa que não existe, avatar, pessoa de mentira, pessoa virtual, digital.
E até nas experiências em que não temos a representação visual de um ser humano, como nos conteúdos, precisamos conviver com a dicotomia se aquele texto foi escrito por Carlos, Irene, Letícia ou pelo ChatGPT, Gemini, Claude.
Um texto é o resultado de uma mistura de experiências culturais, pessoais e se diferenciam por aquela voz da cabeça do autor que exprime suas experiências e que tem um sotaque em Elena Ferrante, outro em João Ubaldo Ribeiro. Só Jeferson Tenório poderia ter escrito “O Avesso da Pele” e também só consigo enxergar Drummond no poema Quadrilha ou Manoel de Barros nas insignificâncias.
Eu posso me divertir com pessoa criada por inteligência artificial, reconhecer uma mensagem de uma propaganda em que encenam pessoas de mentira para me vender uma experiência, um serviço, uma roupa, mas eu gosto mesmo é de pessoa criada por vó, por mãe, pai, tia, tio.
Que a inteligência artificial não subtraia nossa compreensão do mundo a partir da distintividade da nossa humanidade.