O verbo desver não existe oficialmente na língua portuguesa. Simplesmente porque, depois de vermos alguma coisa, é impossível desvermos. E, uma vez visto, não dá para voltar atrás porque a gente não é mais o mesmo que éramos antes de ver.
Eu era criança na década de 80 quando a cidade de Cubatão foi declarada o Vale da Morte, sendo reconhecida pela ONU como a mais poluída do mundo. Eu vi as imagens daquela poluição pela televisão e nunca mais esqueci.
Eu também atuava como voluntária em abrigos para pessoas que estavam desalojadas pela enchente e nós nem sabíamos o que eram as mudanças climáticas.
E essas coisas que vi ainda são uma lembrança muito presente na minha memória.
1.
Muito se tem falado em propósito e eu gosto de defini-lo como uma atuação pelo sentimento. Às vezes esse sentimento é difícil de nomear, dar forma e a gente segue, como se fosse apenas o certo a fazer, uma intuição, um chamado.
Mesmo sem saber muito os comos e porquês, foi assim que eu comecei a atuar na área de sustentabilidade há mais de 20 anos.
2.
Edge effect é um termo que indica áreas que confluem dois ecossistemas diferentes e nasce um terceiro com características novas. A gente pode pegar emprestado esse termo para entender que a agenda de sustentabilidade agiu como um efeito de borda e nós pudemos testemunhar a incorporação das pautas sociais e ambientais na agenda corporativa, pública e da sociedade civil, abrindo o diálogo e a colaboração.
E quando os olhos foram abertos, o mundo se apresentou diferente e a pauta ambiental, uma realidade alarmante:
Apenas 12% da retirada de água doce é para uso doméstico. A indústria e a agricultura respondem pelos outros 88%, segundo dados da UNESCO. A previsão da ONU é que até 2030, os centros de dados poderão consumir tanta eletricidade quanto todo o Japão consome atualmente.
As empresas, o governo, a sociedade, as instituições e nós vimos.
E houve muitas respostas e muitos avanços…
No ano passado foram investidos 800 bilhões de dólares a mais em energia limpa do que em combustíveis fósseis, representando um aumento de quase 70% em dez anos, segundo a ONU.
Outras soluções regenerativas e ecossistêmicas surgiram, inclusive muitas delas ilustradas aqui nesse evento.
Mas, especialmente nesse ano de 2025, tivemos um retrocesso nessas pautas. Estamos no meio de uma avalanche de mensagens contraditórias e cancelamento de políticas, regulamentações e compromissos em relação à redução de emissões de CO2, eficiência de recursos naturais e tantos outros.
E como ficamos nós, profissionais das áreas de sustentabilidade, ambiental, social?
3.
O trabalho é uma importante expressão da identidade da pessoa adulta e, segundo uma pesquisa da McKinsey, 70% dos trabalhadores dizem que seu senso de propósito é definido principalmente por seu trabalho.
Então, o importante é voltar ao básico. Lembre do que você viu e te trouxe até aqui.
E se é preciso ver, a atuação por propósito deve funcionar como a pupila em nossos olhos. Em um ambiente de pouca luz, mais esforços devemos envidar para expandir e reafirmar os porquês. Isto é o que eu chamo de propósito ativo.
A agenda de retrocessos é contraintuitiva, antinatural e não é mais possível voltar atrás. O efeito de borda já criou um novo ecossistema.
4.
Minha família é de uma cidade no interior de Minas. O pássaro Mutum dá nome a essa cidade. Uma ave imponente, com uma elegância selvagem e penas negras com brilho metálico. O som grave do canto do Mutum quando ecoa é como se a mata segurasse a respiração por um instante.
Essa descrição é literária e não é autoral. Passei a infância em uma cidade que leva o nome desse pássaro deslumbrante, mas eu nunca vi um deles e eu trabalho para que nosso futuro não nos prive dessas belezas.
E se você também acredita que o futuro vai refletir o que construímos e preservamos hoje, quero te convidar a retomar esse futuro possível olhando para o que você viu e não consegue desver. Quero te convidar a ativar o seu propósito.
O que te trouxe até aqui? O que você viu e não pode voltar atrás?
É tempo de ver e rever.